(por Rodrigo Alzuguir)
Todos sabemos que o forte do Terê (pelo menos nos plocs anos 80) era a área de Humanas. Isso apesar dos melhores esforços de professores como Chico (Física), Sirley e Luís Eduardo (Matemática) e Olinda (Química). Acho que a política do colégio era formar escritores, redatores e sociólogos. Mas mesmo assim o programa era um mistério. Lembro que fui aprender oficialmente o que era um “verbo” no primeiro ano do científico. A gente ralava nas redações e trabalhos de História – e nada de gramática!
Mas tô aqui para lembrar um trio de mulheres marcantes, pontas-de-lança no escrete das professoras de História (Geral e do Brasil), Geografia e congêneres. Criativas, animadas e com caligrafias ilegíveis, elas acompanharam a gente praticamente ao longo de todo o ginásio e científico. Ano a ano, iam revezando entre si o ensino dessas matérias e estavam sempre por ali.
Suzana era conhecida pela simpatia e pelos trabalhos criativos que pedia. Nisso rivalizava com a Eulália. Era história em quadrinhos sobre Revolução Francesa, teatro sobre Egito Antigo, jogo de tabuleiro sobre Segunda Guerra Mundial, escola-de-samba Unidos da Antiguidade e outras presepadas. A gente caía dentro, porque um trabalho bem feito garantia nota boa com peso três na média – não sei se era exatamente isso, mas lembro que a gente botava o boi na sombra o resto do ano se mandasse bem nos trabalhos. Outro fato que a mulherada da turma comentava era o guarda-roupa sem fim de Suzana. A lenda diz que na história do Teresiano, a nossa professora-top-model jamais repetiu um modelo!!! Haja roupa!!!
Eulália era um caso à parte. Rende vários capítulos no livro do Terê. Na primeira aula do ano ela sempre lembrava que tinha uma letra era bisonha e, pior, mania de abreviar todas as palavras. A gente ficava que nem Champolion tentando decifrar o quadro-negro e as provas dela. Eram tempos de enunciados escritos à mão e provas copiadas na base do mimeógrafo. O texto vinha em lilás e a gente ficava doidão com o cheiro do álcool. Dramática, Eulália era fantástica descrevendo aquelas batalhas antigas entre vândalos, ostrogodos e visigodos. A gente quase que conseguia ver o sujeito cortando a cabeça do outro. Fanática por mapas da Europa medieval, ela caprichava na pronúncia de certos lugares fundamentais (por que mesmo? acho que eram “pontos estratégicos”). Os preferidos eram a Alsácia Lorena, a Bósnia Herzegovínia e a Prrrrrrússia. Rodrigão imita a Eulália perfeito: “Na Guerra tal, os alemães invadem a França etc etc. E QUEM ENTRA DE RABO? (batendo na mesa) A PRRRRÚSSIA!!!” Outro traço marcante da Eulália: quando contava um conto, aumentava todos os pontos. Pra manter o interesse da garotada dodói, Eulália apelava para avô boiando dentro de um barril por três meses no Mediterrâneo e alguém que sobreviveu se alimentando de cobras vivas na Amazônia (e não era gay). Ao final dessa última narrativa, lembro que alguém perguntou: “- Mas por que não matava a cobra antes?” Nossa querida Pantaleona desconversou, dizendo que a fome do cara era tanta que não dava tempo.
Por fim, Rosalina. Geralmente encarregada da Geografia, com suas erosões e assoreamentos, ela sempre puxava a brasa para seu assunto preferido: a Revolução Russa! Tudo acabava em Stálin, Trotski e gangue. Rosalina era (deve ser ainda) bonitona e dizem que foi bailarina. Lembro que ela chegava a ser emocionar falando da União Soviética. Isso num colégio católico é no mínimo engraçado. Será que as freiras sabiam disso? Bom, se elas usam a internet e sabem o que é um blog, vão saber agora. Teve um dia em que a Rosalina levou um som tipo paraibão, botou lá um Rachmaninoff pra tocar e quase chorou contando a história da Revolução Russa. Não sei se o fosfosol tá em dia, mas acho que ela se empolgou tanto falando dos russos que chegou a dançar, rodopiando pra lá e pra cá, naquele tablado da última sala do corredor. Os “pessoal” adorava.
Só pra fechar: corriam por fora a dupla Maysa Mader e Marisa - essa última entrou pro Guiness como a única professora expulsa de sala por excesso de aplausos – mas fica para a próxima.
20 de agosto de 2007
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4 comentários:
Ai, que delícia ler esta crônica! E como eu me empolguei com a Revoluçao Russa em 1980! Tomara que essas professoras sejam internetáveis e leiam esse texto! Parabéns!
Nós somos internetáveis e lemos a crônica do Alzuguir. Confesso que me emocionei: foi muito bom saber que vocês ainda se lembram dessas professoras que sempre fizeram de tudo para convencer essa garotada da importância de estudar.
Obrigada pelotexto, obrigada pelo carinho e não se esqueçam de nos convidar para a festa.
Beijos
Suzana
PS - 'Não sei de onde tiram essa história sobre meu guarda-roupa. Vou contar meu segredo: é só misturar algumas peças de forma insólita que todo mundo acha que nunca viu aquela roupa. É só isso, viu?
Por causa dessas aulas, comprei livros de Maximo Gorki. Meu pai me apelidou de camarada Lia. Até hoje pega no meu pé!!!
Lendo sua crônica Rodrigo, revivi momentos maravilhosos de minha adolescência...beijos Pets
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